Como Fire Emblem mudou a indústria dos games

Fire Emblem x Tear Ring Saga

Yo! Quando eu era criança, tive acesso ao primeiro Fire Emblem, para Famicom. Na minha família, nenhuma das crianças se interessou pelo jogo. RPG tático, todo em japonês, não entendíamos nem as regras. O visual era espantoso para a época, mas ainda assim, não atraía as crianças.

Eu insisti. Joguei sem saber ler sequer português direito e fui entendendo a mecânica e os comandos errando. Quando finalmente eu passei pela primeira fase, o jogo já tinha me conquistado.

Desde então, eu tenho o gênero como um dos meus favoritos. Super Robot Taisen me apresentou pra muitos animes de mecha, Civilization IV é um dos jogos que eu mais rejoguei na minha vida.

Porém, o gênero foi um patinho feio da indústria dos games por anos. Fire Emblem quase foi limado de vez por sua complexidade e foi salvo quando a versão para 3DS trouxe maior acessibilidade. Nesta história, o herói secreto pode ser o Smash Bros. O game, no auge de sua popularidade mundial, trouxe Roy e Marth para os embates, criando a curiosidade do público, que acabou indo atrás de Fire Emblem. Assim, a série pode continuar existindo.

Mas talvez sua maior contribuição para a indústria dos games venha de um ponto muito mais polêmico.

Fire Emblem

O criador de Fire Emblem se chama Shouzou Kaga. Ele trabalhou para a Intelligent System, uma second party da Nintendo que ficou mais conhecida no Ocidente pela série Advance Wars.

Kaga era tão talentoso quanto era problemático. Sua visão de aliar RPG com jogos táticos foi inovadora e ao mesmo tempo, muito desafiadora. Ele estudava estratégia de guerra de grandes líderes históricos e criava mapas punitivos. Seus soldados tinham história, vida, personalidade. Além disso, criou o sistema de permadeath, morte permanente de personagens que tornava a dinâmica de guerra ainda mais dura.

Ele foi a mente por trás da série somente nos primeiros jogos, até o Super Famicom. Saiu por diferenças criativas em agosto de 1999, fundando sua própria produtora, a Tirnanog. Lá, Kaga teria a possibilidade de investir em jogos que respeitassem mais a sua visão artística.

Mas é aí que mora a treta.

O primeiro jogo anunciado por Kaga foi Emblem Saga. Com demo disponível em CD distribuído na Dengeki Playstation, ele foi anunciado como um sucessor direto da série Fire Emblem, incluindo não apenas o sistema de jogo, mas até nomes e parte da trama. A arte também era de Mayumi Hirota, que havia trabalhado na série da Nintendo.

Conhecida por processar todo mundo, a Nintendo não demorou a tomar uma atitude judicial contra seu ex-funcionário. Mas talvez não tenha sido uma boa ideia enfrentar um mestre de batalha tática.

De frente a um conhecido inimigo formidável, Kaga sabia que tinha poucas chances de sair vitorioso. Então, não havia por que derrotar o inimigo.

O tribunal deu causa parcial para a Nintendo, que fez a Enterbrain, publisher do jogo, pagar 76 milhões de ienes, 1.3 milhão de reais na época, por concorrência desleal em sua campanha publicitária.

Mas o trunfo aconteceu quando o juiz não acatou a causa de violação de direitos autorais. Assim, o game apenas mudou de nome.

Tear Ring Saga saiu para Playstation, ganhando uma continuação chamada Berwick Saga. Os detalhes ligados à Fire Emblem saíram, mas a essência ficou. Berwick é considerado um dos melhores jogos do gênero e é um clássico hoje em dia. Recentemente, o autor voltou da aposentadoria criando Vestaria Saga, dando continuidade aos jogos complexos que são sua característica.

E esse precedente abriu terreno para que outros criadores pudessem fazer sucessores espirituais de seus sucessos, quebrando um estigma da indústria dos games, que ainda sustenta o modelo da empresa que detém os direitos de criação da obra, diferente do cinema, literatura ou da música.

Assim, jogos como Bloodstained, Eiyuden Chronicle e Mighty No. 9 puderam existir, desenvolvidos pelos criadores de seus jogos originais.

Mas o fogo baixou e a Nintendo acabou encontrando o caminho que queria para Fire Emblem, deixando Shouzou Kaga livre para fazer seus jogos mais complexos. Win-win com um fundinho amargo para ambos os lados, um emblema partido em dois, que alimenta os fãs com mais opções dentro de um nicho bem fechado.

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