O inesperado retorno de Torneko em alta definição

No estado atual da indústria de jogos, em que praticamente todo e qualquer lançamento é vazado, antes mesmo de ser anunciado oficialmente ao grande público, a revelação de Dragon Quest Heroes: Torneko’s Mystery Dungeon – Classic HD, na última edição da Nintendo Direct de setembro, pegou todo mundo de surpresa!  

Integrando as comemorações pelos 40 anos da franquia Dragon Quest, o clássico roguelike revitalizado em alta definição, chega em boa hora para aplacar um pouco da expectativa dos fãs, que aguardam ansiosamente pelo lançamento de Dragon Quest Monsters: Withered World, em dezembro deste ano, e por novas informações de Dragon Quest XII: Beyond Dream, ainda sem previsão de lançamento. 

Já disponível em formato digital, para as mais diversas plataformas, como Nintendo Switch 1 e 2, PlayStation 5, Xbox Series X e S e Steam, essa versão remasterizada do roguelike, estrelada pelo mercador bonachão de Dragon Quest IV, para plataformas modernas, é um marco importante não só para o legado de Dragon Quest, mas também para o da franquia Mystery Dungeon (Fushigi no Dungeon).

Lançado originalmente em 1993, apenas no Japão, para Super Famicom, Fushigi no Dungeon: Torneko no Daibōken (Masmorra Misteriosa: A Grande Aventura de Torneko) não foi só o primeiro spin-off de Dragon Quest, como também o primeiro jogo da marca Mystery Dungeon, que anos mais tarde viria a se consagrar como uma das mais influentes — e celebradas — da indústria de jogos do Japão. 

Uma remasterização adorável e na medida certa

Dragon Quest Heroes: Torneko’s Mystery Dungeon – Classic HD, como sugere o título, não se trata de uma reimaginação do jogo original e, sim, de uma remasterização com gráficos em alta definição para sistemas modernos. A direção de arte do jogo se mantém praticamente a mesma do original de Super Famicom, com belíssimos sprites em 2D. O diferencial fica por conta dos cenários, interfaces, efeitos sonoros recauchutados e uma animação inédita de abertura. 

Trata-se de uma experiência um para um, sem nenhum conteúdo adicional de história e gameplay. Para os jogadores veteranos, é uma oportunidade de revisitar um clássico há muito tempo preso na biblioteca dos 16 bits da Nintendo. E para os novatos, a oportunidade de conhecer esse divertidíssimo e desafiador spin-off de Dragon Quest, nunca antes localizado oficialmente para o mercado ocidental. Uma pena, no entanto, que para dona Square-Enix, o Brasil pareça não existir. O jogo só dispõe de apenas dois idiomas e nenhum deles é o português, como você pode imaginar. 

Mas pra ser sincero, a barreira do idioma não chega a ser um empecilho assim tão grande. O enredo de Torneko’s Mystery Dungeon é simples e direto ao ponto: O mercador, acompanhado de sua esposa e filho, parte para uma nova vila, após ouvir os rumores sobre uma tal “Masmorra Misteriosa”, onde, reza a lenda, existem diversos tesouros adormecidos. Chegando na nova morada, cujo nome é definido pelo jogador no começo da aventura, Torneko procura receber do Rei local o direito de abrir seu próprio negócio na vila, onde pretende vender os tesouros adquiridos na masmorra e garantir o sustento da família.

Agora, se a história do jogo parece simples e bobinha, não se pode dizer o mesmo da aventura principal e da jogabilidade. Afinal, estamos falando de um legítimo roguelike. Ser derrotado pelos monstros na “Masmorra Misteriosa” pode ser um tanto custoso.

Mil aventuras pelo preço de uma

A verdadeira aventura de Torneko e do jogador começa pra valer quando se adentra pela primeira vez a masmorra e os elementos do gênero roguelike começam a assombrar o juízo dos jogadores. Seguindo a tradição do que se espera de um jogo assim, toda vez em que o jogador é derrotado na masmorra, ele zera absolutamente todos os seus status e tem seus pertences surrupiados, sem dó, nem piedade. E para deixar a situação ainda mais humilhante, o jogador é obrigado a assistir o pobre Torneko sendo carregado e arremessado para fora da masmorra por um bando de monstros, como se fosse um saco de batatas.

Fora da masmorra, existem algumas opções de interação com a esposa e filho do protagonista, além de alguns NPCs que frequentam a sua loja. Eles fornecem dicas valiosas e emitem diferentes opiniões sobre o seu negócio. Algumas gentis e outras nem tanto. Contudo, a reação desses visitantes vai mudando de acordo com os investimentos feitos pelo jogador, usando a bufunfa obtida nas visitas à masmorra. 

O grande desafio, no entanto, é conseguir acessar os andares mais profundos da “Masmorra Misteriosa”, onde se encontram os melhores tesouros e trazê-los até a superfície, sem ser derrotado no processo. Isso requer retornar todos os andares percorridos anteriormente, tendo em mente que todas às vezes em que se entra e sai de um andar ou da própria masmorra, o mapa muda aleatoriamente. Então, nem adianta tentar memorizar o percurso, pois não há como prever quais mudanças virão.

A cada nova tentativa do jogador na masmorra, ele será surpreendido com uma experiência diferente da anterior. Por isso, o que vale aqui é o acúmulo de experiências adquiridas e os erros de jornadas passadas. Só assim, ele conseguirá guiar Torneko de volta para casa com toda sorte de tesouros incríveis. 

Lições aprendidas na Masmorra Misteriosa

Bom, se você chegou até aqui, já entendeu que jogar Dragon Quest Heroes: Torneko’s Mystery Dungeon – Classic HD exige tempo, determinação e doses cavalares de paciência. Falando da minha experiência com o jogo, sendo um recém-chegado no gênero roguelike e na franquia Mystery Dungeon, eu tenho gostado muito das minhas horas de jogatina. Apesar disso, não posso negar o nível absurdo de tensão que senti enquanto jogava, com medo de um pequeno vacilo condenar toda minha trajetória pela masmorra.

A bem da verdade, quando iniciei a primeira aventura com Torneko, não fazia a mínima ideia do que estava fazendo a princípio, mesmo com todas as dicas generosas cedidas pelo Rei, ministros e habitantes da vila. A partir daí, você pode imaginar o desempenho sofrível de minhas primeiras explorações na masmorra. Fui derrotado três vezes seguidas e com pouquíssimos passos. Nem deu pra sentir o gostinho da aventura.

Mas com as derrotas, vem o aprendizado. E depois de muito apanhar, comecei a compreender que cada passo ou movimento feito pelo Torneko na masmorra correspondia também a um passo dos monstros. Por esse motivo, eu vivia sendo encurralado pelos monstros toda hora e não entendia o porquê. Uma vez que compreendi essa mecânica fundamental do fluxo de gameplay, a minha experiência com o jogo mudou completamente. 

Ainda assim, existem outros aspectos que necessitam ser gerenciados durante a exploração nas masmorras. A fome, é um deles. Além da barra de HP (pontos de vida), Torneko tem um medidor em porcentagem para sua fome. Caso você não alimente o pobre homem, ele irá perder seus pontos de vida, gradualmente, até bater as botas. O seu estoque de itens é outro aspecto a ser gerenciado, pois existe um limite de quantos deles você pode carregar por vez. O segredo está em encontrar o equilíbrio entre usar, guardar e descartar esses pertences. Inclusive, arremessar armas sem uso é uma ótima pedida para causar danos à distância e sair por cima no combate.

Torneko, meu herói 

Posso falar com segurança que, dos personagens masculinos da franquia Dragon Quest, Torneko é disparado um dos meus favoritos. Pai presente, ótimo marido, gente fina e trabalhador. Tem como não admirar, esse cara? Sou fã desde que concluí Dragon Quest IV no meu Nintendo DS. 

Poder jogar essa aventura clássica do personagem, desenvolvida pela Chunsoft, é para mim um sonho realizado, como fã de longa data de Dragon Quest. Fico feliz pela comunidade ter acesso a esse título tão importante e divertido da franquia por meios oficiais em plataformas modernas. 

De ressalvas, fica o preço salgado por um jogo com pouquíssimas adições se comparado com o material original e também a ausência do português e outros idiomas. Em pleno 2026, uma empresa do porte da Square-Enix lançar um jogo com apenas inglês e japonês é no mínimo questionável.

Se como eu, você nunca havia jogado Torneko’s Mystery Dungeon, essa é uma ótima oportunidade para conhecer a franquia. E se for o contrário, um jogador veterano, você pode aproveitar o jogo novamente e no conforto de um Nintendo Switch, por exemplo. 

Enquanto Dragon Quest XII não vê à luz do dia, Torneko é uma ótima pedida para matar o tempo e estar imerso na comemoração de 40 anos da franquia, que essa semana atingiu a marca de 100 milhões de cópias vendidas mundialmente. 

Vida longa para Dragon Quest!

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