REVIEW Kore Kaite Shine
Yo! Talvez seja o Bakuman-like com mais alma que já existiu. Bora ver.
O mangá deste anime já estava no meu radar faz tempo. Apesar do jeitão de slice of life genérico, o mangá é extremamente elogiado por seus pares, mangakás. A história é citada como um sucessor não de Bakuman, mas de Manga Michi, clássico de Fujiko Fujiyo A, que conta como foi morar no Tokiwa-so, a pensão dos mangakás onde moraram as lendas da era clássica.
Não foi por menos. A trama conta como uma menina se apaixona por mangás, devora vários, encontra um pra sua vida, vive pautada pelas falas das histórias e seu melhor amigo é seu amigo imaginário, o protagonista de seu mangá favorito.
A história é doce e suave, como pede a cartilha de um slice of life. Mas não é tão simples assim. É como se fosse uma torta de limão com caramelo. É bem doce, ácido às vezes, com muito frescor, mas lá no fundo, tem um amargo acentuando a doçura.

O autor do mangá se chama Minoru Toyoda. Ele já se destacou por diversas obras, como Love Roma. Não é mais um garoto, ele já passou dos 50. E ainda assim, transborda identidade e fala com o coração, como se fosse um jovenzinho.
Essa alma que transborda de suas páginas acabou rendendo frutos. O mangá venceu o Manga Taisho de 2023 e o Shogakukan Awards, provando que tanto público quanto a crítica aprovam o material.
O anime consegue transmitir esse sentimento e tem a delicadeza e a brutalidade necessária para traduzir as páginas em movimento.
Como o nome diz, “Desenhe isso e morra”, é ao mesmo tempo empolgante e brutal, pois pega na veia mais exposta de qualquer pessoas que desenha, escreve ou qualquer coisa, sem ser fofinho o tempo todo. Várias vezes, as coisas dão errado.

Mesmo quando tudo parece estar controlado por um clima de leveza, os adultos principalmente devem notar a ansiedade, o desespero, a dor… E isso é uma habilidade especial do autor. Você lê sentindo um clima leve, mas entende que está acontecendo algo. Personagens se sentem perdidos na trama e você não sente que as coisas vão ficar tão bem assim.
Claro que muitas vezes, as coisas acontecem para dar certo. E tá tudo bem. Você quer ver isso. Mas essa identificação com quem já viveu de arte é muito forte, e a gente sente o fracasso como se fosse nosso.
Muitas vezes, Kore Kaite Shine é comparado à Bakuman, mas acho que a grande diferença é a identificação com o público. Enquanto Bakuman trata de gênios e fala muito da indústria, esta história trata de amadores, que falham, que são incompletos e que não vão necessariamente vencer. E te faz torcer, mas não como você torceria pro possível vencedor, mas por um amigo azarão.

Toyoda diz que gosta do clima da Kirara, a revista dos mangás slice of life, como Yuru Cam. Mas trouxe aqui uma profundidade muito maior.
Ai Yasumi é uma criança alegre e criativa, mas com problemas de socialização. Seu melhor amigo é imaginário. Seus hobbies são todos solitários. Ela vive em Tokyo, mas em uma das ilhas, não na cidade grande. Mesmo com o amor e compreensão dos pais, ela ainda sente a necessidade de ter amigos.
Ela poderia sentar no balanço e lamentar a solidão, mas é dos mangás que surge sua inspiração para mudar. Seu amigo invisível Pokota surge para dar conselhos e fazer companhia. Ele é protagonista de um mangá que teve apenas um volume, de um autor que nunca mais publicou profissionalmente, mas que tocou o coração de Ai e se tornou seu mangá favorito, para ler e reler.
Pokota fala ao ouvido de Ai:
O que a protagonista de um mangá faria agora?

Essa frase será repetida na série sempre que a menina pensa em desistir ou não quer tomar uma atitude. Ser a protagonista de sua vida exige ter coragem e fazer as coisas acontecerem.
E é assim que ela faz amigas. É assim que ela começa a ser menos passiva em seu hobbie. E mesmo sendo ruim de doer, ela começa a fazer seus mangás.
Muitas pessoas devem entender como é difícil dar o primeiro passo. Tomar essa atitude às vezes, depende de tão pouco e ainda assim é tão difícil e é o que nos prende ao ostracismo. Às vezes, nós não somos incompetentes, somos apenas covardes e isso pode ser o que nos deixa os anos seguintes lamentando que pessoas medíocres tomaram o que nos era de direito.
Se em muitos mangás nós temos pessoas aprendendo a fazer coisas incríveis, aqui vemos Ai aprendendo o básico do básico. E com ela, vamos revendo ou até conhecendo mais a fundo o que realmente significa escrever uma história.

Talvez pela idade do autor, algumas amarras e orgulhos que ele talvez tivesse quando jovem já foram abandonadas e a história acaba sendo uma ode apaixonada aos mangás, como leitor, amante, escritor e parte da indústria.
E mesmo nas passagens mais pesadas da trama, ele traz o mangá como um amor doído, uma relação que durou o bastante para te machucar, mas que ainda assim, é muito importante em sua vida.
O final desta temporada cutuca numa ferida muito dolorosa. Mas que talvez seja o elo que nós nunca temos com o fracasso de um mangaká. Aos olhos dos fãs, somente o brilho importa. Quando uma história perde sua luz, nós buscamos a próxima, assim como insetos numa noite de verão. E ao breu do esquecimento deixamos os desesperados, que perderam noites de sono e cada fio de esperança na navalha do prazo e da popularidade.

Só que esta história é uma história de sonhos. E na forma de páginas divididas em quadros, eles nos ensinam o que não sabemos e tudo aquilo que a vida nos fez esquecer.

PS: Segunda temporada confirmada!
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