Diários de uma A… Não, Diários de uma Viagem à China

Já se imaginou atravessando as telas e caminhar pelos cenários e paisagens de seus animes favoritos? Como seria mergulhar na riqueza cultural de um lugar real e, ao mesmo tempo, sentir-se dentro de um mundo imaginário, descobrindo em cada detalhe, em cada peculiaridade, conexões entre duas dimensões aparentemente tão diferentes, mas surpreendentemente próximas?

Pois fiquem comigo, porque vou contar a vocês minha experiência pessoal visitando pela primeira vez a cidade de Pequim, na China, e como essa viagem me inseriu ainda mais no universo de Kusuriya no Hitorigoto/Diários de uma Apotecária!

Por que Pequim?

Eu poderia resumir o tópico com um singelo e autoexplicativo “Por que não Pequim?”, mas acho que um pouco mais de desenvolvimento não faria mal.

O interesse por Pequim especificamente remete aos meus tempos de escola — sim, há 84 anos — uma época em que os livros eram nossas únicas referências visuais. Eles me mostravam a Grande Muralha da China, os palácios e templos, a história milenar contada por cada pedra de sua estrutura; como uma jovenzinha belorizontina poderia sequer sonhar em conhecer um lugar assim?

Com as voltas do mundo e as peripécias do destino, cá estou eu vivendo no Japão e tendo a China como vizinha!

Até o ano passado, era necessário visto para entrar na China continental. Neste ano de 2026, foi decretada a isenção de visto para brasileiros até o dia 31 de dezembro (até o momento da publicação deste artigo), e foi aí que eu soube que não podia deixar essa chance passar! Comprei minha passagem para os dias 5 a 10 de setembro e dei início à realização de um sonho!

E onde Diários de uma Apotecária entra nisso?

Claro que meu sonho de infância não foi meu único motivador! Como uma completa fanática por Diários de uma Apotecária e disseminadora das palavras de Maomao, nossa deusa e soberana, Pequim era uma pequena Pasárgada a ser explorada.

Antes de entrarmos nesta seara, contudo, preciso fazer uma ressalva.

Sou uma assídua consumidora de todos os materiais lançados de Diários de uma Apotecária, incluindo a light novel, anime, mangá, eventos, posts da autora Hyuganatsu, e qualquer outro conteúdo de acesso público.

Dito isso, é importante deixar claro que o universo da obra nunca menciona a China propriamente dita. O nome do país na série é Ri, e outros territórios fronteiriços, como Shao e Hokuaren, também não correspondem oficialmente a regiões específicas do nosso mundo. Também não existe uma equivalência histórica com os personagens, acontecimentos, dinastias, etc.

No entanto, não podemos — e nem precisamos — negar as fortes influências da China imperial presentes no universo apotecarístico, especialmente no que se refere à arquitetura, escrita, hierarquia, organização da sociedade, roupas e costumes.

Com isso em mente, embarquemos em uma viagem incrível, no ponto onde o real e a ficção se encontram.

A Muralha da China

A primeira parada é a Grande Muralha da China, na porção de Mutianyu, que fica a cerca de 70 km de Pequim.

Essa parte da muralha está bem conservada e entrega acessibilidade, além de uma vista que faz valer a dor na panturrilha após subir e descer todos os milhões de degraus que levam de um lado a outro.

A paisagem era exuberante, com muitas montanhas ao redor. Por ser verão, o cenário era bastante verdejante, e a alta umidade deixava uma leve névoa na atmosfera.

Ao longo do caminho, havia bastiões, torres que eram usadas para vigiar os arredores no passado.

Qual não foi minha surpresa com a ironia do destino de chegar no 16º bastião e encontrar justamente um… gato!

A sensação de estar na muralha da China, uma das sete maravilhas do mundo moderno, foi a de recontar histórias de luta, guerra, sacrifícios, mas reconhecendo a importância desses elementos para definir o mundo como é hoje.

Mas como ela influenciou o universo de Diários de uma Apotecária?

No livro e no anime, não há qualquer menção sobre uma estrutura que remeta à muralha em si.

Mesmo assim, em uma associação totalmente pessoal, senti que era possível traçar um paralelo com a fortaleza do clã Shi, um local relevante para a trama na segunda temporada.

Nessas fotos, por exemplo, vejo uma certa semelhança entre os locais. Como era verão, a paisagem não estava nevada, mas as fotos exibidas na própria muralha mostravam-na coberta de neve, criando uma imagem que, para mim, lembrava muito a fortaleza.

Quase conseguir ver a Loulan em um dos bastiões, olhando triste e decidida para a vastidão branca, sabendo exatamente o que estava prestes a ocorrer naquele lugar.

A Cidade Proibida

Sem qualquer dúvida, a Cidade Proibida foi o local que mais influenciou o palácio interno de Diários de uma Apotecária.

Trata-se de um complexo de palácios onde viveram as dinastias Ming e Qing por mais de 500 anos. O local servia de moradia para o imperador e membros da família imperial, e também era um importante centro administrativo.

A semelhança do palácio interno com a Cidade Proibida não se restringe apenas à arquitetura; as cores, o labirinto de palácios e corredores, os portões, muros, áreas externas, telhados… A sensação era de que a Maomao apareceria a qualquer momento atrás de alguma erva medicinal e que o Jinshi sairia de um dos palacetes com seu habitual sorriso de ninfa celestial.

Imagem do anime

Foram quase cinco horas andando pela Cidade Proibida, me perdendo nas várias entradas que desembocavam em mais palácios e pensando em como deveria ser viver ali.

Imaginei as consortes, as damas de companhia, as servas e os eunucos vivendo enclausurados naquele espaço. Por mais grandioso e extenso que fosse, havia algo de opressivo naquela imensidão cercada por muros. Estar ali me fez compreender melhor o isolamento que aquele ambiente representava.

Não à toa, a Maomao repara, em tantas ocasiões, que o palácio interno nada mais é que uma enorme prisão disfarçada de jardim de flores, afetando das menores às maiores castas da hierarquia.

Imagem do anime
Palácio da Pureza Celestial, Cidade Proibida

Tanto na Cidade Proibida quanto no palácio interno, o “sagrado” e o “imperial” se confundem. Eram muitos os templos dedicados à prosperidade, onde o imperador assumia o papel de mestre ritualístico para garantir a sobrevivência de seu povo.

Um local que me chamou a atenção foram as casas de gelo, construídas no século XVIII para armazenar gelo. Tinham uma profundidade de 1,5 metro, sendo possível guardar até 5.000 cubos. Cerca de 15 dias antes do solstício de inverno, o Ministro dos Trabalhos enviava seus homens para coletar gelo dos fossos da Cidade Proibida. Eles então cortavam em blocos de 50 cm e os mantinham nas casas de gelo. Este era um material importante usado em rituais e para o conforto durante os quentes e úmidos verões chineses.

Parte externa de uma casa de gelo

Um doce para quem tiver se lembrado de um episódio em especial de Diários de uma Apotecária!

Do alto da colina Jingshan, era possível ter uma real dimensão do tamanho da Cidade Proibida.

Palácio interno (Imagem do anime)
Painel sobre o palácio interno (Exposição do anime de Diários de uma Apotecária – “Kusuriya no Hitorigoto Ten” em Tokyo, março de 2025)

A água em volta desse complexo de palácios reforçou ainda mais sua beleza, mas também mostrou que, em ambos os universos, era um local regido por regras, hierarquias e limites bem definidos.

O Templo do Céu

O Templo do Céu, mais especificamente o Altar das Orações, também é um elemento icônico que serviu de inspiração para o universo de Diários de uma Apotecária.

Ele apareceu no episódio 19 da primeira temporada do anime — um dos meus preferidos — com o nome de Soukyudan ou “Altar do Céu de Safira”.

Assim como o Jinshi usou o local para um ritual, o Altar das Orações de Pequim era um lugar sagrado onde o imperador rezava para garantir boas colheitas antes do período do plantio.

Um detalhe que achei particularmente interessante é que, assistindo os episódios 17 ao 20 da primeira temporada, as roupas dos personagens — ou melhor, a ausência de casacos ou vestimentas que indicassem frio — a flora e o ambiente em geral davam indícios de a estação em que o Jinshi realizou o ritual era de fato a primavera!

Quando colocamos as duas estruturas lado a lado, a semelhança arquitetônica delas se torna evidente. Ambas são formadas por níveis, com entalhes dourados separando cada telhado. A cor azul faz referência direta ao céu e traz uma especificidade única ao pavilhão, contrastando com o vermelho característico da maioria dos palácios de Pequim. A placa azul e dourada no último nível exibe o nome do altar.

Quanto às diferenças, no anime a borda das janelas é branca, e no palácio original, vermelha escura. Outra diferença está nos telhados: enquanto a versão animada possui quatro níveis, a construção original apresenta três.

Altar do Céu de Safira (Imagem do anime)
Altar das Orações

O interior de ambos os altares também tem símbolos e cores parecidos, mas são distintos tanto em termos de design quanto de tamanho.

Interior do Altar do Céu de Safira (Imagem do anime)
Interior do Altar das Orações

No lado externo, confesso que foi difícil segurar a emoção ao ver a escadaria. Foi como reviver a cena do Jinshi carregando a Maomao ferida para fora do altar, sob os olhos inconformados do Lakan. Senhores, que cena!

Jinshi carregando Maomao (episódio 19 da 1ª temporada)
O vidro no meio da escadaria é para proteger os entalhes originais

Todos que me conhecem sabem que, dificilmente, meus interesses são mornos. Gosto de ir até o fundo, de quebrar barreiras, encontrar cada pista que possa me levar a novas conclusões — e claro que Diários de uma Apotecária não fugiria deste padrão.

Essa experiência de conhecer os lugares que inspiraram a autora não apenas me colocou dentro do anime; de certa forma, também me senti no lugar dela, pesquisando, caminhando por entre os corredores, observando cada detalhe gravado nas paredes dos palácios, coletando elementos que dariam uma ambientação digna a personagens tão bem construídos.

Durante minha viagem, jamais me esqueci das raízes dos locais que visitei. Eu não enxergo esses cenários somente através dos olhos de Diários de uma Apotecária, mas também por aquilo que são: espaços que carregam séculos de história, tradições e vivências de pessoas que existiram muito antes de Maomao e Jinshi.

Talvez essa tenha sido a parte mais especial de tudo. Viajar até Pequim não foi apenas uma oportunidade de reconhecer lugares que eu já conhecia através de uma obra que amo, mas de descobrir que, por trás da ficção, existe um mundo real tão belo e rico quanto aquele que a imaginação da Hyuganatsu conseguiu conceber.

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