Adeus, Tetsuya Chiba

Yo! Morre um dos maiores mangakás de todos os tempos.

Certo dia, o editor de Tetsuya Chiba na Kodansha o chama para uma conversa. Um dos maiores nomes do mangá queria muito falar com ele e o chamou para um bar.

Chiba foi, receoso. O famoso escritor era famoso por ser durão e difícil de lidar. Abrindo a porta do bar, pode ver um grandalhão de óculos escuros na mesa de frente à porta. Quando se aproximou, Chiba viu suas enormes mãos calejadas de lápis e de golpes de karatê se estenderem em sua direção.

Era Ikki Kajiwara. Escritor de grande sucesso, maior nome da Shonen Magazine na época. Os boatos diziam que era difícil de lidar e que transformava a vida de seus desenhistas em pesadelo. Seu estilo de trabalho cooperativo era muito peculiar. Ele lutava contra seu artista. Escrevia sua história em um papel de script. Deixava a trama se contar. O desenhista se virava para interpretar e transformar em mangá. Ele não aprovava. Via a história pronta e tentava ser ainda melhor do que o desenho.

Ikki Kajiwara e Masutatsu Oyama
Ikki Kajiwara era irmão de consideração do criador do Karatê Kyokushin, Masutatsu Oyama. Faixa preta de 4dan.

Chiba foi para não fazer desfeita. Não ia aceitar. Ele não era desenhista, era criador. Publicava desde a escola. Virou profissional na Shoujo Book, revista irmã da Shonen Book, que viria a se tornar a Shonen Jump. E sim, ele começou fazendo mangá para meninas em 1958, como todo iniciante de sua época.

Kajiwara parecia ainda mais aterrador de perto. Boatos diziam que ele enfrentava de mãos limpas os mafiosos armados que iam tirar seu dinheiro, que já havia puxado cadeia e que era faixa preta de judô e karatê. Nada parecia mentira diante daquele homem.

E no entanto, seu sorriso era de uma criança. Ele cumprimentou entusiasmado e não deu mais nem um segundo. Começou a contar sobre a história que iriam fazer. Era a história que ele levou uma vida para decidir contar. Mas ele já era autor dos dois maiores sucessos em publicação da revista, e pediram para ele usar outro nome para assinar essa nova história. Decidiu usar um pseudônimo mais próximo de seu nome real, Asao Takamori.

Para Kajiwara, essa história precisava de um desenhista especial. E Chiba parecia ser esse desenhista. Quando perguntado pelo seu editor, ele deu apenas uma alternativa. Tetsuya Chiba, ou nada.

Acuado, Chiba não tinha como dizer não. Mas Chiba, mesmo com um corpo pequeno e mais frágil, não era flor que se cheire. Desde a China, onde passou sua infância, seu gênio forte era famoso. Não iria se dobrar.

Antes de aceitar, Chiba pediu a palavra. Teria que ser em seus termos. Ele queria poder participar das decisões de roteiro e alterar a história sempre que sentisse necessidade.

Kajiwara sentia uma briga no ar. Ele olhou nos olhos de Chiba com uma expressão completamente diferente. Agora ele parecia um demônio, enorme e amedrontador. Sua voz ecoava até fora do restaurante, frustrada, raivosa.

Desafiando o perigo, Chiba se levantou. Se não for nos meus termos, eu tenho mais o que fazer.

Um tapa quase quebrou a mesa. Quem saiu antes foi Kajiwara. Mas antes de fechar a porta, ele olhou para Chiba e falou: “Certo. Espere o melhor roteiro da sua vida!”

A publicação desta obra foi considerada uma história por si só. Dois nomes talentosos unidos, criando uma história de boxe única. Quando o manuscrito de Kajiwara chegou, Chiba sentia a pressão do lápis no papel. As letras escritas com raiva, mas também com muita empolgação. Chiba mudou a primeira cena, incluindo crianças antes de qualquer briga.

Conhecido como um maestro da narrativa, Chiba sabia contar uma história como ninguém. Quando Kazuhiko Torishima decidiu entender o que tornava um mangá bom de ler, pegou tudo o que encontrou de Chiba. O que ele aprendeu, usou para treinar seus novatos. E um deles se tornou o mestre do mangá prazeiroso de ler. Akira Toriyama.

Era esse o talento que Ikki Kajiwara reconhecia em Chiba. Por isso, mesmo aos murros e pontapés, ele iria contar essa história assim.

Nascia Ashita no Joe. O maior mangá de um dos maiores nomes de todos os tempos. Uma obra que se apresenta sozinha. Um clássico atemporal.

Joe Yabuki seria um dos primeiros personagens que quebrariam os limites de suas próprias páginas para ser algo maior. Influenciaria a sociedade, criaria pernas próprias e faria parte da história do Japão.

Quando terroristas sequestraram um avião para os levar para Cuba, onde iriam treinar para fazer a revolução comunista no Japão, eles iniciaram o ataque falando “Nós somos Ashita no Joe”.

Esse viés chão de fábrica, essa veia mais proletária, vem diretamente de Chiba. Enquanto Kajiwara adorava grandes batalhas e dramas pessoais, o desenhista era quem tinha uma preocupação mais comunitária. Isso culminaria com a Associação dos Mangakás, que ele presidiu até seu último dia na Terra.

Em certo momento, a trama de Joe chegaria a um ápice. Na luta contra seu rival, Rikiishi, o pior acontece. Rikiishi morre, criando uma das cenas mais lembradas da história dos mangás. Na época, o aclamado diretor de cinema Shuji Terayama era muito fã da história.

Conhecido por sua abordagem bizarra da arte, Terayama colocava atores fantasiados de aristocratas europeus decadentes interpretando na rua, entre pessoas comuns. Criador do Angura, ele influenciaria o cinema com sua abordagem agressiva e criativa, que é citado como a raiz do Visual Kei, o Metal japonês com maquiagem, laquê e vestidos europeus em personagens andróginos.

Em sua cabeça criativa, Terayama chorou a morte de Rikiishi e decidiu usar seu talento para criar algo inédito.

Com o aval dos criadores, o diretor fez um velório para Rikiishi. O primeiro evento do tipo. Foi tudo feito como uma tradicional cerimônia japonesa, com direito a monge e convidados. Chiba foi e ficou surpreso com o impacto que sua obra havia atingido.

No final de tudo, Kajiwara já estava cansado. Lutou sua maior luta por tanto tempo que até um homem daqueles já havia encontrado seu limite. Ashita no Joe se tornou um grande sucesso, o maior de sua carreira, e por isso, ele podia acreditar que a luta seria um empate técnico. Mas, assim como no boxe, só acaba quando toca o gongue.

Com o último roteiro em mãos, Chiba liga para Kajiwara. Não gostou de nada. Pede para refazer. Kajiwara não ouve nem o que Chiba pretende fazer. Aquele brutamontes que dobrava qualquer inimigo apenas com um olhar estava cedendo para Tetsuya Chiba.

Foi aí que nasceu outra cena que jamais seria esquecida. Chiba se despede de Joe depois dele lutar até o final, até sua última gota de suor secar no calor de seus músculos tensos. Joe se torna cinzas, com um sorriso cansado e satisfeito de sua vida.

Se alguém amava os mangás, esse alguém era Chiba. Produziu muito em uma vida empunhando uma pena. Ensinou e ajudou outros artistas, inclusive politicamente. Foi um defensor ferrenho de melhores condições de trabalho e de liberdade criativa incondicional, inclusive lutando contra o mundo quando pressionaram para que o Japão mudasse suas normas de publicação.

Uma vida de luta pelo que dava sentido para ela jamais o fez baixar a cabeça. Nem para Kajiwara. Nem para editores. Sequer se curvou para o mundo. Não há dúvidas que Tetsuya Chiba se foi com um sorriso cansado e satisfeito. Cinzas, como as de Joe, espalhadas por suas páginas.

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